{"id":548,"date":"2025-06-05T18:51:41","date_gmt":"2025-06-05T21:51:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.crisgusman.com.br\/?p=548"},"modified":"2025-06-05T18:51:41","modified_gmt":"2025-06-05T21:51:41","slug":"quando-a-linha-de-chegada-se-torna-inalcancavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crisgusman.com.br\/?p=548","title":{"rendered":"Quando a Linha de Chegada se Torna Inalcan\u00e7\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Eu corri minha primeira meia maratona em 2017. Naquele momento, achei que pararia por ali, que seria apenas um desafio para marcar a minha hist\u00f3ria. Mas a corrida, com toda sua intensidade e entrega, trouxe tanta alegria para minha vida, que eu continuei. Continuei porque n\u00e3o \u00e9 apenas sobre correr; \u00e9 sobre sentir. Sentir a for\u00e7a no corpo, a supera\u00e7\u00e3o na alma, e a felicidade de cruzar aquela linha.<\/p>\n<p>Hoje, sete anos depois, j\u00e1 completei 18 meias maratonas e, no \u00faltimo domingo, deveria ter completado minha 4\u00aa maratona. Quem me acompanha sabe que gosto de dividir cada treino, cada conquista e cada sonho. Para muitos, correr uma maratona parece um objetivo louco, quase imposs\u00edvel. S\u00f3 quem j\u00e1 trilhou esse caminho entende o quanto ele \u00e9 solit\u00e1rio e, ao mesmo tempo, envolvente. Mas n\u00e3o apenas os corredores. Todos que convivem comigo tamb\u00e9m entendem. Eles sabem como sou: focada, disciplinada, um tanto obcecada. Envolvo quem amo nessa paix\u00e3o, porque cada prova se torna um momento de celebra\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 mais do que apenas eu e a corrida, \u00e9 sobre todos que torcem comigo.<\/p>\n<p>No domingo, por\u00e9m, algo inesperado aconteceu. Eu abandonei a prova. Nunca imaginei que essas palavras fariam parte da minha trajet\u00f3ria. Eu sempre fui aquela que acredita que, n\u00e3o importa o quanto doa, voc\u00ea se arrasta at\u00e9 pegar aquela medalha. Mas, no quil\u00f4metro 17, meu corpo simplesmente parou. Uma dor aguda tomou conta do meu quadril direito e me deixou est\u00e1tica. Comecei a caminhar, mas a dor era t\u00e3o intensa que parecia insuport\u00e1vel. A cada passo, uma enxurrada de pensamentos invadia minha mente: <em>\u201cDroga, meu RP j\u00e1 era.\u201d<\/em> <em>\u201cVou ter que caminhar&#8230; n\u00e3o, vou trotando, n\u00e3o vou desistir.\u201d<\/em> <em>\u201cEst\u00e1 doendo demais, n\u00e3o vou conseguir nem isso.\u201d<\/em> <em>\u201cAt\u00e9 onde aguento? Posso continuar? Deveria?\u201d<\/em> E, finalmente, a pior conclus\u00e3o de todas: <em>\u201cEu vou parar&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p>Quando essa realiza\u00e7\u00e3o me atingiu, foi como se uma onda gelada percorresse meu corpo. L\u00e1grimas brotaram sem controle enquanto eu buscava um posto m\u00e9dico. A dor f\u00edsica j\u00e1 n\u00e3o era mais o pior. Era a dor de ver os outros corredores passarem por mim, gritando \u201cVamos! N\u00e3o desiste!\u201d. Era a dor de cada passo que me afastava do meu sonho. Me arrastei at\u00e9 o posto no quil\u00f4metro 18, entre l\u00e1grimas e frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00e1, me deram duas op\u00e7\u00f5es: uma viagem de ambul\u00e2ncia at\u00e9 o hospital para uma inje\u00e7\u00e3o de ibuprofeno ou simplesmente voltar para casa. Eu n\u00e3o queria que aquele sofrimento se estendesse ainda mais, ent\u00e3o escolhi ir para o apartamento. Me lembrei das hist\u00f3rias de amigos que terminaram suas maratonas em hospitais, presos em burocracias, e decidi que Buenos Aires n\u00e3o me veria de ambul\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Quase meia hora depois, esperei por um Uber, ainda chorando, ainda dolorida. Tinha que ir at\u00e9 a largada buscar minhas coisas no guarda-volume. Um colega, que tamb\u00e9m havia abandonado a prova, me ajudava. Eu mal conseguia andar, sentindo dor e l\u00e1grimas sem fim. Quando finalmente peguei minhas coisas, desabei. Ver os outros atletas com suas medalhas, sorrindo, vibrando, me deu um n\u00f3 no peito. Aquelas medalhas brilhavam como uma conquista que me foi arrancada.<\/p>\n<p>N\u00e3o era apenas dor f\u00edsica. Era como se algo precioso, algo que j\u00e1 era meu, tivesse sido cruelmente tirado. Eu treinei, eu fiz tudo certo. O que deu errado? N\u00e3o foi fracasso, n\u00e3o foi arrependimento&#8230; foi tristeza pura. Uma tristeza t\u00e3o profunda que parecia castigo. Algo que eu n\u00e3o merecia.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o me lembro da \u00faltima vez que chorei assim.<\/p>\n<p>Voltei para o apartamento, e a tristeza se transformou em medo real: o que ser\u00e1 que era essa dor? Uma fratura? Ser\u00e1 que ficarei sem correr? Sem andar? O p\u00e2nico e o choro se misturavam, mas a vida adulta \u00e9 dura, e temos que seguir em frente.<\/p>\n<p>Amigos se preocupavam, o m\u00e9dico me tranquilizou. E, com a autoriza\u00e7\u00e3o dele, fui tomar meu vinho \u2014 tentando brindar ao futuro que eu ainda n\u00e3o conseguia enxergar. Ainda choro. Ainda me pego revivendo cada momento daquele dia. Mas a realidade nos empurra para a frente. Escrevo estas palavras ainda sem o resultado da resson\u00e2ncia, ainda sem respostas, ainda sem entender por que tudo isso aconteceu.<\/p>\n<p>Eu queria esquecer, mas sei que n\u00e3o posso. Ent\u00e3o, prefiro eternizar. Espero que, um dia, eu volte a ler este texto com al\u00edvio. Que eu possa, finalmente, entender o porqu\u00ea de toda essa dor e transform\u00e1-la em mais um cap\u00edtulo de supera\u00e7\u00e3o na minha hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>TEXTO PUBLICADO EM 27 DE SETEMBRO DE 2024<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu corri minha primeira meia maratona em 2017. Naquele momento, achei que pararia por ali, que seria apenas um desafio para marcar a minha hist\u00f3ria. Mas a corrida, com toda sua intensidade e entrega, trouxe tanta alegria para minha vida, que eu continuei. Continuei porque n\u00e3o \u00e9 apenas sobre correr; \u00e9 sobre sentir. 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